Dirce

Eu estava numa pista de dança numa boate. Eu me jogava no chão e tentava levantar fazendo onda. Quando encontro o Juca, meu amigo de ensino fundamental. Maior felicidade reencontrá-lo. Eu continuo me jogando no chão e levantando aos poucos, fazendo onda, parecendo lesma, seguindo a música. Quando o Juca vê que estou só de cueca e camiseta, ele se aproxima de mim, toca no meu pinto e diz: - se você não usar cueca, mas cueca mesmo (não essa cueca pequena que você está usando agora), as pessoas vão querer te currar aqui. Visto logo a bermuda. E percebemos que o salão da boate faz ligação com uma plateia de auditório. Uma banda cover iria tocar clássicos do rock. Na passagem de som os equipamentos de áudio tocaram Dream on da banda Aerosmith. Parecia que ia ser um show muito bom. Eu e o Juca nos sentamos pertinho do mini palco.
Sobem ao palco três japoneses (nipo-descendentes), um loiro, outro ruivo e o terceiro normal. As pessoas ficam decepcionadas de ver três baixinhos e gordinhos para um espetáculo de rock 'n roll. Mas enfim, a prévia havia sido ótima, a expectativa era boa.
Quando eles começam a tocar Black night, do Deep Purple, logo as pessoas ficam felizes com a escolha de repertório. Mas imediatamente começasse a notar que a passagem de som estava horrível. Com o som abafado, barulhento. As pessoas do fundo da plateia começam a reclamar, o Juca lhes dá razão. Ai aparece um japonês grandão, vestido com roupa de feirante, que começa a discutir. Algumas pessoas vão embora. Uma mulher diz: se a próxima música for boa, eu fico para assistir mais uma. - E se a segunda música for boa, você fica para assistir mais duas! - eu digo. Enquanto isso o Juca argumentava como tinha que ser melhor o som, subia na área da mesa de som, conversava com o técnico. Chegava uma hora que o japonês grandão falava: eu não sei resolver isso. E eu emendava: e eu também não. Ele se acalmava e sentava num banco uma fileira atrás da minha. O Juca voltava ao seu lugar e o trio se preparava para mais uma música.
Quando eu notava que tinha uma criança agarrada a mim. Abraçada. Uma menina de 7 anos, morena. Ela abria a boca, mordia meu antebraço como se fosse um cachorro e babava todo meu braço.
Eu cutucava ela para ela sair dali mas ela continuava ali. - Se afasta que eu já senti você fazer cócegas na minha carteira algumas vezes. Eu me levantava e ia em direção a ela. E mencionava que ia chamar a polícia. Ela imediatamente virava um livro, com uma foto dela dentro do livro. Eu ainda podia ouvi-la. Eu subia toda arquibancada da plateia e ia lá para cima para poder conversar melhor com ela. Só que ela quase não falava.
- Olha, eu já subi aqui para cuidar de você, viu, eu me importo com você. (apontava o livro para o palco e dizia) - Viu, estou perdendo parte do show para cuidar de você. - Qual é seu nome?
- Dirce.
- Por que você estava querendo pegar minha carteira? Do que você está precisando?
- silêncio
- Quantos anos você tem?
- Sete
- Você gostaria que eu fizesse isso com você?
- silêncio
- Onde tem alguém responsável por você?
- silêncio
Começo a observar que há algumas serventes da casa de espetáculos lá em cima. E que elas ouvem minha conversa com a Dirce, que agora era um livrinho em minhas mãos (eu havia pego uma bandeja de plástico, na verdade uma tampa de caixa de plástico da Marfinite, para carregar o livro com cuidado)
- Posso te deixar perto de mulheres sérias e responsáveis?
- Depois de algum silêncio. - Pode.
Tinha uma mesa redonda de plástico branco, com alguns copos em cima. Eu escolho um lugar segura e deixo o livro lá em cima.

Fim do sonho

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